Debora Tito

A receita amarga de Suape

Débora Tito – debora.tito@mpt.gov.br

De pouco dias pra cá, Suape parece estar desmoronando. Não seus firmes alicerces de construção modelo mais que padrão Fifa. Não. Isso está ali, portentoso, exibido. Falo dos alicerces da responsabilidade sócio-trabalhista. De repente, uma sucessão de calotes emerge, sacode, explode, estoura, vilipendia, agride, deforma o tal modelo padrão incógnita. Tudo começando pelo comportamento no mínimo irresponsável de uma empresa envolvida em escândalos nacionais, que, numa perversa alquimia, transforma em lama tudo o que toca. E a conta está sobrando para quem? Para os trabalhadores, o lado mais fraco no duelo de titãs.

Experimente a receita em casa: coloque numa panela uma obra modelo. Acrescente uma empresa bilionária. Adicione outra empresa dita próspera à mistura. Contrate mil e trezentos trabalhadores. Deixe-os sem salários por dois meses. Acrescente à mistura a expulsão dos mesmos dos seus alojamentos porque a empregadora também não pagou esses contratos. Some tudo e deixe em banho-maria, marinando, por dias a fio. Leve ao forno. Repita a receita sucessivas vezes, acrescentando novos ingredientes: outras empresas sempre com números expressivos de envolvidos: 800 trabalhadores; 1600 trabalhadores. Leve ao forno novamente. Proteja a cabeça.

E o amargo dessa mistura deságua nas instâncias trabalhistas. Sindicatos, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Justiça do Trabalho (principalmente os nobres guerreiros juízes das Varas de Ipojuca) alçados à condição de tábua de salvação, apagando os incêndios deixados no rastro desses calotes, enfrentando a fúria dos trabalhadores famintos nas suas portas.

Criamos um fórum, em dezembro do ano passado, para tratar das questões de Suape. O MTE e o MPT estavam preocupados principalmente com o desemprego em massa. O cerne da idéia era a prevenção. Eis que meses depois de funcionamento do Fórum para Recolocação da Mão de Obra de Suape (Remos), ao invés de evoluirmos para a efetiva realocação dos obreiros em outros postos de trabalho, incrementando a empregabilidade dos mesmos, estamos às voltas com atrasos e não pagamentos generalizados de comezinhos direitos básicos, numa evidente involução.

Suape está desmoronando. Quando pensei em redigir este artigo, esta última frase seria uma pergunta. Acrescentei o “parece estar” parágrafos acima. Agora, desenvolvido o pensamento, dispo-me dos subterfúgios e afirmo. Ficarei feliz se estiver errada… E quem deveria, afinal, segurar essa estrutura gigantesca? Com a bola imaginária, dividida entre tantos jogadores atordoados, a grande atacante do time: vai que é tua, Petrobras!

Débora Tito é procuradora do Trabalho em Pernambuco